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UE propõe banir 11 plataformas cripto no novo pacote de sanções contra a Rússia

O 21º pacote de sanções da União Europeia, apresentado em 10 de junho, mira pela primeira vez um grupo de 11 plataformas cripto acusadas de ajudar a Rússia a driblar restrições financeiras — e cria o poder inédito de banir serviços cripto de países inteiros. Entenda o que está na proposta, como cripto virou rota de fuga de sanções e o que ainda precisa acontecer para virar lei.

Na quarta-feira, 10 de junho de 2026, a Comissão Europeia apresentou a proposta do seu 21º pacote de sanções contra a Rússia — e, pela primeira vez, colocou um grupo inteiro de plataformas cripto no centro do alvo. A proposta prevê a proibição de transações com 11 plataformas de criptomoedas acusadas de ajudar Moscou a contornar as restrições financeiras impostas desde a invasão da Ucrânia, em 2022. Os nomes das plataformas não foram divulgados publicamente até aqui.

A chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, resumiu o objetivo ao anunciar as medidas: dar “um duro golpe no setor financeiro da Rússia”.

Importante desde já: trata-se de uma proposta, não de uma lei em vigor. Para valer, o pacote precisa da aprovação unânime dos 27 países-membros da UE — um processo que, segundo a imprensa especializada, deve se concluir em meados de julho.

O que há no pacote

O 21º pacote é descrito como a maior expansão de sanções financeiras da UE contra a Rússia até hoje. Os principais pontos, segundo a OCCRP e o The Block:

  • Cripto: proibição de transações com 11 plataformas que, segundo as autoridades europeias, ajudam a Rússia a driblar sanções operando a partir de países terceiros (fora da Rússia e da UE).
  • Bancos: cerca de 90 bancos russos entram na lista de congelamento total de ativos — com isso, o número de bancos sancionados passa de 100 — e mais de 35 instituições, na Rússia e em países terceiros, ficam proibidas de transacionar com a UE.
  • Empresas de fachada: controles de comércio sobre 50 empresas fora da Rússia — em países como China, Turquia, Quirguistão, Cazaquistão, Emirados Árabes Unidos e Índia — acusadas de intermediar a evasão de sanções.
  • Outros alvos: componentes para produção de drones, comerciantes de petróleo, embarcações da chamada “frota fantasma” e figuras próximas ao Kremlin, como o negociador Vladimir Medinsky.

A novidade: banir cripto de países inteiros

Além da lista de 11 plataformas, o pacote introduz um instrumento inédito: a possibilidade de a UE proibir completamente a prestação de serviços de criptoativos a partir de determinados países terceiros onde essas plataformas operam.

Em termos práticos: até agora, a UE sancionava plataformas, empresas e pessoas uma a uma — um jogo de gato e rato, porque uma exchange sancionada pode reabrir com outro nome em outro país em questão de dias (já aconteceu, como veremos abaixo). Com o novo poder, o bloco poderia cortar de uma vez o acesso ao seu mercado de todo o setor cripto de um país considerado rota de evasão.

É uma escalada significativa de método — e também um precedente que gerou debate: um instrumento desse tamanho, criado para a Rússia, passa a existir na caixa de ferramentas da UE para qualquer conflito futuro.

Como cripto virou rota de fuga das sanções

Para entender por que a UE chegou a esse ponto, vale recapitular a história recente — ela explica o desenho do novo pacote.

  • 2022: o Tesouro americano sanciona a Garantex, exchange russa acusada de processar mais de US$ 100 milhões em transações ilícitas, incluindo dinheiro de ransomware e mercados da darknet.
  • Março de 2025: uma operação internacional tira do ar os sites da Garantex e congela cerca de US$ 26 milhões em cripto. Dias depois, surge no Quirguistão uma nova exchange, a Grinex — operada, segundo investigadores, pelas mesmas pessoas. Clientes da Garantex receberam o equivalente aos seus saldos em um token chamado A7A5.
  • A7A5: lançada em fevereiro de 2025, é uma stablecoin lastreada em rublos (uma criptomoeda desenhada para manter o valor da moeda russa). Segundo o Conselho da UE, ela se tornou “uma ferramenta proeminente para financiar atividades de apoio à guerra de agressão”, movimentando dezenas de bilhões de dólares.
  • Outubro de 2025: no 19º pacote, a UE impõe suas primeiras sanções diretas a criptoativos — proíbe transações com a A7A5 e sanciona seu desenvolvedor, o emissor no Quirguistão e a plataforma onde o token era negociado.

O padrão que emerge dessa linha do tempo é o que o novo pacote tenta atacar: a infraestrutura sancionada não desaparece — muda de nome e de país. Daí a lista de 11 plataformas em países terceiros e o poder de banir setores inteiros.

Um detalhe que separa fato de narrativa: nada disso significa que “cripto financia a guerra” em escala comparável aos canais tradicionais — os próprios pacotes da UE mostram que o grosso das sanções segue mirando bancos, petróleo e comércio. Cripto é uma das rotas de evasão, relevante e crescente, mas uma entre várias.

O que ainda precisa acontecer

  • Unanimidade: os 27 países-membros precisam aprovar o pacote sem exceção — e pacotes anteriores já enfrentaram resistência de países como a Hungria, o que costuma atrasar ou diluir as propostas.
  • Prazo: a expectativa relatada pela imprensa é de finalização em meados de julho, com a possibilidade de um “minipacote” acelerado já em 15 de junho.
  • Os nomes: a lista das 11 plataformas só será conhecida oficialmente com a publicação do regulamento no Diário Oficial da UE.

Por que isso importa para quem está no Brasil ou em Portugal

  • Em Portugal (e em toda a UE), a regra vale diretamente. Se o pacote for aprovado, qualquer pessoa ou empresa no bloco ficará proibida de transacionar com as plataformas listadas. Exchanges regulamentadas na Europa já bloqueiam ativos sancionados (como a A7A5) e deverão estender os bloqueios — quem usa serviços europeus não precisa fazer nada, mas sentirá os efeitos em listagens e restrições.
  • No Brasil, o efeito é indireto, mas real. Grandes exchanges globais tendem a aplicar listas de sanções da UE e dos EUA em todos os mercados onde operam, para não perder acesso bancário. Na prática, decisões tomadas em Bruxelas moldam o que está disponível também para o usuário brasileiro.
  • O precedente importa mais que a lista. O poder de banir serviços cripto de países inteiros é uma ferramenta nova na regulação global do setor. Como toda ferramenta, o que importa é como — e contra quem — será usada daqui para a frente.
  • Como sempre: nada aqui é recomendação de investimento.

O que acompanhar daqui para a frente

  • A negociação entre os 27: o pacote passa inteiro, diluído ou atrasa?
  • A lista oficial das 11 plataformas, quando o regulamento for publicado.
  • A reação do mercado de stablecoins de rublo: a A7A5 continuou crescendo mesmo sancionada — sinal de que a eficácia dessas medidas ainda está em teste.
  • Se o novo poder de banimento por país será usado — e contra quem.

Resumo

A União Europeia apresentou em 10 de junho de 2026 o seu 21º pacote de sanções contra a Rússia, propondo proibir transações com 11 plataformas cripto acusadas de ajudar Moscou a driblar restrições a partir de países terceiros — e criando, pela primeira vez, o poder de banir serviços de criptoativos de países inteiros. A medida é a continuação de uma escalada que começou com a Garantex (sancionada e derrubada, renasceu como Grinex) e a stablecoin de rublo A7A5, banida no 19º pacote. Ainda é uma proposta: precisa da aprovação unânime dos 27 países, esperada para meados de julho, e os nomes das plataformas não foram divulgados. Para quem está na Europa, as regras valerão diretamente; para quem está no Brasil, o efeito chega pela porta das exchanges globais, que tendem a aplicar essas listas em todos os mercados. O fato maior: a regulação de cripto por sanções deixou de ser pontual e virou política estruturada — e isso redesenha o mapa do setor, com ou sem guerra.

Fontes